sábado, 6 de setembro de 2014
As incongruências assustam
As incongruências assustam
A mídia nos traz maravilhas e lixos, ao mesmo tempo. Para conviver com tudo que nos chega, diariamente, pela TV, jornais, e-mails, redes sociais, sem perder o equilíbrio, é preciso muito malabarismo e senso de humor.
Basta assistir a um noticiário televisivo, para perceber o quanto de animalidade está à solta mundo afora. Esta semana o mundo, estupefato, assistiu ao vídeo em que um jornalista americano está preste a ser decapitado por suposto membro do Estado Islâmico. Na mesma ocasião, mostrou-se o êxito da captura de foragido da justiça, o ex-médico Roger Abdelmassih, sanjoanense, para vergonha nossa. Mulheres enganadas, molestadas e estupradas por ele comemoram a prisão, embora haja recursos interpostos à espera de apreciação do judiciário. No aeroporto de Congonhas, onde desembarcou, vindo do Paraguai, foi submetido a toda sorte de xingamentos e imprecações, como parte do revide pelos males que causou.
Se fosse registrar aqui todos os fatos escabrosos, fruto da conduta animalesca do homem, faltar-me-ia estômago e ao leitor também, para digerir tanto lixo.
Em compensação, as belezas captadas no dia a dia são refrigério à alma. Ainda ontem, ao acessar um PPS, fui às lágrimas: imagens espetaculares – flores em profusão, multicoloridas, em especial, cerejeiras em flor, tendo como fundo musical a Serenata de Franz Schubert. Fiquei em estado de graça, flutuando, diante de tamanha maravilha.
Numa das imagens, um pavão belíssimo, arte da mãe-natureza, concorre com as flores. Quase pausei a exibição, para contar as cores que a linda ave carrega na cauda aberta em leque. Imponência e delicadeza estacionaram ali, em dose dupla, numa combinação perfeita.
Pena que somos metralhados com o bem e o mal, numa velocidade impossível de acompanhar, sem sairmos zonzos. As incongruências da vida assustam. Como pode o ser humano subir tão alto, capaz de façanhas espetaculares, presenteado ainda pela Natureza em festa, e, ao mesmo tempo, decair, em fração de segundos, como autor de barbaridades inconfessáveis?
Pessoalmente, não consigo me imaginar como uma gangorra maluca, com bem e mal refestelados em cada extremidade. Não dá! Mas noto que essa visão impossível de mim mesma parece normal para muita gente.
No caso do médico, por exemplo, supondo-se que seja culpado das acusações que pesam sobre ele, como pode levar vida de rei, exibindo à sociedade estrangeira e à própria família um retrato de pai; marido extremoso? Pai que leva filhos à escola, que passeia, cultiva pomares etc. Pode? Pode, sim. Que será que esse projeto de homem tem no lugar dos miolos?
No caso do degolador do americano, será que, terminado o “serviço”, em que ostenta onipotência, consegue sentar-se à mesa para um banquete? Será que o cheiro de sangue humano lhe atiça o apetite? Será que é pai? Será que sua cabeça vale mais do que a que ele golpeia? Será que uma lavagem cerebral o tornou autômato, insensível, incapaz do equilíbrio razão/ emoção?
Se, no cotidiano, eu pudesse filtrar o conteúdo que vai chegar aos meus sentidos seria ótimo. Cresci, ciente da existência do bem e do mal. Mas jamais imaginei um mundo assim tão louco, em que flores e pássaros me encantam, ao mesmo tempo em que facas me estraçalham ...
minesprado@gmail.com “Rabiscos de Minês”:minesprado.blogspot.com.
Nossa pele de bebê
Nossa pele de bebê
Você entra apressadamente num banheiro, faz suas necessidades e... Caramba! Cadê o papel?
Essa é uma situação corriqueira e atemporal. Viramos o século, dependendo do papel higiênico a nossa disposição nos sanitários da vida - em casa, avião, hotel, casa alheia ou até no mato.
Há quem faça questão absoluta de ele ser de certa marca, mais macio, perfumado ou neutro, folha simples ou dupla, vinte ou trinta metros etc. Mas o que importa mesmo é sabê-lo ali, ao nosso alcance, na hora certa, não é mesmo?
Interessante é que ele tem mil utilidades, além da básica – limpar/secar nossas partes íntimas. Algumas delas aqui vão. Cortou-se, ao fazer a barba ou depilar-se? Um pedacinho do santo papel colocado sobre o corte estanca o sangue na hora. O batom está muito forte? Aperta-se um pedacinho do papel entre os lábios e pronto – a boca fica mais discreta, sem ar de palhaça. Problemas com frieiras resultam, quase sempre, de enxugar mal o vão entre os dedos. Fazer um rolinho de papel e passar ali resolve essa chatice. Você, homem, teve sua carteira roubada, pois ela estava dando sopa no bolso traseiro da calça? Solução: dobre um tanto de papel e ponha no bolso de trás; guarde a carteira noutro lugar e, se houver uma próxima vez, divirta-se vendo o larápio fulo da vida, decepcionado, jogando pra cima de você o chumaço de papel. A janela do quarto perturba seu sono, chacoalha, porque foi mal colocada e o vento não quer saber do seu grilo com o barulho que deixa você insone? Amontoe um tanto de papel e enfie no vão entre a janela e a vidraça: que paz! E, se justo na hora do nº 2, vier uma poesia supimpa, não hesite, puxe uma folha do rolo e lasque ali seus versos, antes que fujam e você se lamente por desperdiçar seu lirismo na privada.
Depoimento do papel higiênico: ‘Reconheço que sou indispensável na vida de todo mortal. Porém, pra sair da monotonia, pinto e bordo. Vira e mexe, escapo do pauzinho em que fico encaixado o dia todo e danço e rolo pelo chão limpo ou sujo, não importa. Ai que liberdade gostosa fazer um pouco de alongamento, à imitação dos meus usuários! Aí, se uma dona toda metida precisa de mim, divirto-me a valer: mãos bem cuidadas, pontinhas de dedos com medo de contaminação, querendo me agarrar - hilária essa cena. Outro lance divertido é quando meu rolo vai começar a ser usado e um ou uma infeliz morrendo de pressa não consegue achar meu início. Puxa-me, estraçalha-me, nada de acertar meu picote. Se eu estiver num daqueles suportes gigantes, próprios de rodoviárias e shoppings, aí a coisa engrossa, pois sumo lá na escuridão do troço e dali não saio, dali ninguém me tira. Vida boa a minha. Só odeio servir de banquete pra ratos. Vocês precisavam ver a cara dum fazendeiro cuca-fresca, ao me pôr na mão duma hóspede e só então notar que eu estava todo roído... ’
Pois é, viramos o século, mas o papel higiênico continua praticamente sem novidades. A grande diferença é que substituiu o jornal... Quem frequentou casas antigas, de gente mais simples, deve ter se limpado/enxugado com jornal cortado em quadrados pendurados num gancho de arame... Era bem desconfortável e anti-higiênico, só que noutros tempos ninguém pensava que a tinta e a aspereza do jornal faziam mal pra nossa pele de bebê, vero?
minesprado@gmail.com
“Rabiscos de Minês:minesprado.blogspot.com.br
Set./14TC
sábado, 16 de agosto de 2014
11 DE AGOSTO
11 de Agosto
(em memória de Dr. Pedro Lessi)
Levantei-me, ligada na segunda-feira, dia de várias atividades, inclusive caminhada. Manhã de sol - melhor ainda. Saí, deixando o serviço adiantado: feijão descongelando, peixe temperado, alface de molho no vinagre, a lista é comprida. Só dona de casa entende disso. E, talvez, meia dúzia de homens mais jovens, pois repartem o serviço doméstico com a mulher.
Mas não é desse cotidiano que quero falar e, sim, do Dia do Advogado, do qual fui lembrada por um colega de Facebook. Então, revi longo e sinuoso caminho percorrido.
Desde criança quis ser professora e assim aconteceu. Outras questões da minha vida podem ter saído atrapalhadas, mas a vontade de menina se satisfaz até hoje. Comecei como normalista, seguindo o conselho materno; depois, estudei sete anos de inglês, por influência do marido; então, após lapso de vinte anos, retomei os estudos, fiz duas faculdades: Letras e Direito, para ter diploma superior. Inaugurei, assim, minha fase pós Santos.
Quando anunciei que prestaria vestibular para Letras, papai e meu advogado santista protestaram: “O quê? Como? Mas você tem que fazer Direito!” E justificaram o protesto, com a afirmação de que eu levava jeito de advogada. Só então descobri algo que me tinha passado batido: eu era perspicaz, detectava rapidamente o cerne do problema, ao mesmo tempo em que tinha facilidade para pôr as ideias no papel. Não era à toa que, tempos antes, Dr. Lessi, “o defensor das mulheres” (uma delas a primeira esposa do Pelé), entregara-me o calhamaço da minha separação, para que eu rascunhasse um arrazoado, com provas.
Mas eu estava certa. Com licenciatura em Letras, daria aulas em todos os níveis de ensino. Era o que eu precisava. E assim fiz. Somente dez anos depois de formada em Letras, parti para o Direito, satisfeita e satisfazendo a gregos e troianos. Dar os passos, em busca da justiça, é prazeroso. O sacrifício foi imenso, datilografava os trabalhos madrugada adentro e, às seis da matina, já estava de pé, na correria das aulas. Mas valeu, pois me realizei também como advogada, ainda que o retorno financeiro fosse ínfimo. Cada pedido “procedente” era uma conquista. Registro aqui um dos casos emocionantes em que atuei.
Alguém pode imaginar, numa ação de reconhecimento de paternidade, o cidadão ganhar uma filha e um neto? A audiência em que a questão foi solucionada emocionou todo mundo – juiz, promotor, advogados e partes. Lágrimas podem ser lindas...
Dos honorários, posso dizer, sem exagero, que mal pagavam a sola do sapato. A única marca financeira que guardo é uma mesinha de vime, com tampo de vidro, que me restou em processo de execução, após o exequente ir a Taboão da Serra, buscar bens penhorados que encheram um caminhão. Adorei a mesinha meio detonada, mas de muita serventia e que, há vinte anos, é pau pra toda obra. Hoje ela ampara vasos de plantas, na garage da casa nova.
Ao me tornar doutora, ouvi que tinha de fazer clínica geral, ou seja, advogar em todas as áreas. Isso não combinava comigo. Como iria dar conta, com responsabilidade, de problemas jurídicos diversos e ainda lecionar, sobretudo redação, o que exige muito empenho e tempo?
Até tentei cível e penal, mas o primeiro processo-crime já me mostrou que não saberia defender alguém escancaradamente culpado. O máximo que consegui, nesse caso, foi amenizar a pena, graças a argumentos e provas de problemas psicológicos.
Justo hoje, Dia do Advogado, em que a Oração dos Moços, de Ruy Barbosa, enfatiza tão bem o papel do advogado, na sociedade, a TV noticia: em Sorocaba, um peruano, técnico de radiologia, foi preso, por ter gravado, com câmeras instaladas até em ralos, pacientes de todo naipe, trocando de roupas, usando o sanitário etc. A namorada afirma ser ele um cara tranquilo, amável, de quem jamais imaginaria tal conduta. Por mim, se tivesse que fazer a defesa dele, solicitaria exame de sanidade mental e torceria para que fosse detectado distúrbio grave. A livre convicção é essencial para nossa lida. Embora a Constituição reze que todo cidadão tem direito à defesa, eu, de fato, perderia o sono, se tivesse que defender o autor dessa aberração ou quaisquer outras, como jogar um bebê pela janela, bater em idosos, assassinar pais, para herdar fortuna, e demais horrores que requerem sangue frio.
PUBLICAÇÃO NO EDIÇÃO EXTRA DE 16/8/14
sábado, 9 de agosto de 2014
Patente de pai
Patente de pai
Se pudesse criar uma patente de pai, eu o faria rapidinho. Inscreveria meu saudoso pai, Danilo Bohn Prado, como produto único. Dizem que filha idealiza o pai como modelo de homem. Até concordo, mas isso não me abala. Mesmo porque distingo o que ele tinha de fantástico (até no nome: Bohn) e o que tinha de quase bom, pois algumas arestas precisavam ser ajeitadas. Pouca coisa a mexer, para ele ser “dez”.
Paciência, meu pai tinha de sobra. Pequenina, convivi com esse retrato consubstanciado na confecção anual de balões, em agrado à amada junina, mamãe. Eram perfeitos, delicados, papel de seda com dobrinhas milimetricamente calculadas, cola na dose certa, decoração criativa – a cada primavera de mamãe, dizeres diferentes no conteúdo e na forma. Como à época não havia proibição, soltá-los era uma festa. A paciência permeou a vida dele toda. Talvez porque fosse exímio adestrador e pescador, era capaz de passar horas a fio, sentado, calado, em vigília, ao lado de um doente da família. Meus “pepinos” de saúde foram amenizados por sua presença amorosa. Também lhe devo lições que me acompanham vida afora, como enxugar o vão dos dedos do pé com rolinho de papel higiênico e segurar o queixo, para não dormir de boca aberta... Na hora dos pesadelos escolares, ensinou-me a deslindar problemas de matemática: “Um tanque tem duas torneiras, uma despeja tantos litros por hora, outra..., em quanto tempo o tanque estará cheio?” Assim, deixou-me afiada para o terrível exame de admissão ao ginásio. Outro retrato de paciência: embalar nenês no carrinho ou segurar-lhes a mãozinha, até que dormissem, ou ensiná-los a andar, no que passava horas, sem nenhum sinal de cansaço; fazer-lhes garrafinhas do gomo da laranja, oferecer-lhes uvas descascadas e sem semente e muito mais.
Segurança da presença silenciosa. Meu pai não precisava dizer absolutamente nada, para transmitir confiança, acolhida, apoio. O olhar firme, as mãos fortes, o porte de lorde ou poeta ou filósofo – tinha de tudo um pouco -, apenas ajudavam a pintar o retrato. O interior de meu pai, isso sim, transbordava segurança. Contava-se com ele.
Caráter reto iluminava sua face. Solidez de princípios tornavam suas atitudes coerentes até demais. Outro dia contei, aqui, que papai, congregado mariano, deixara de comungar, porque ele e mamãe precisaram evitar filho, renunciando ambos à eucaristia, até a morte. Infalível nos deveres, era pontual em tudo e prezava a “satisfação”, quando não pudesse cumprir algo. Esperava o mesmo dos outros...
Perseverança, uma lição que nos deixou, para conhecer o progresso. Adolescente, órfão de pai, estudava à noite e trabalhava durante o dia. Sua carreira de bancário deve-se aos cursos de aprimoramento feitos com bastante sacrifício: contabilidade, taquigrafia, inglês, português, alguns por correspondência.
Arestas a serem aparadas, papai as tinha, por força da genética alemã. Uma delas era-lhe constrangedora e, por extensão, a nós todos: a dificuldade de dar beijos e abraços. Mas eu via carinho sem tamanho em outros mimos dele, como me acordar com café com leite espumante. Outra aresta era o excesso de reserva e exigência com ele próprio, ou seja, “polícia 24 horas”. Herdei muito disso, o que me dá um trabalhão. É preciso balancear certas facetas nossas, para não sofrer ou fazer sofrer.
A descrição do “pai” que gostaria de patentear encheria mil laudas. Como o espaço no Cotidiano é exíguo, arremato: meu pai, sério ou alegre na medida certa, é produto cada vez mais raro, não só pelo amor consagrado à família, mas pelo legado dos legados – o nome honrado e a educação através do exemplo.
minesprado@gmail.com “Rabiscos de Minês”:minesprado.blogspot.com.br
sábado, 2 de agosto de 2014
Vovozado
Vovozado
Hoje, 26 de julho, é Dia dos Avós; portanto, meu dia, seu dia. Segundo a história, Santa Ana e São Joaquim, pais de Maria e avós de Jesus Cristo, são nossos padroeiros. A data da celebração passou por várias alterações, até o papado de Paulo VI, a quem é atribuída a inserção no calendário atual.
Para mim, o vovozado começou faz tempo. Num aniversário meu, vinte e oito anos atrás, ganhei bombons, com um cartãozinho: “Parabéns, futura vovó!”. Desde então, a fila puxada por Bruna encompridou. São quatro netos – três meninas e um garoto - todos bem crescidos, lindos, inteligentes e tudo de bom que olhos de avó enxergam. O melhor, trazem alegria a esta fase de futuro curto. Retribuo-lhes, com amor pintado de mimos e experiências.
Na verdade, jamais esqueço que sou avó. Se vejo algo que lembre algum (a) neto (a), pronto! Já me ponho a pensar no seu jeito, seu cheiro, seus carinhos. E quando eles vêm me ver ou vou a eles, aí é uma maravilha!
Neste ano, entre março e julho, tive a visita dos quatro, um por vez.
Em março, num fim de semana relâmpago, Bru veio despedir-se, antes de alçar voo, para estudar, passear e também encontrar-se com seu amor. Apesar de pouquíssimo tempo, até baile fomos; Bru, toda bela, parou a festa.
Em abril, Lu voou do nordeste para cá. Peguei-o em Campinas, todo importante, mochila nas costas, carteira de homem, o retrato da independência. Fomos à Milk Moni, ao Bedrock, batemos muito papo e, de quebra, paciente, deu-me dicas de informática. Ah, Lu trocou lâmpadas pela primeira vez na vida. E na minha casa. Creio que guardará essa experiência bem guardadinha, para contar aos filhos dele... O tempo foi pouco, mas rico.
Em junho, foi a vez de Lê voar sozinha, para visitar os três avós. Ficou uma semana aqui. Logo na chegada, estendeu-me, meio tímida, um embrulho de papel-bolha. Ansiosa, só sossegou quando abri o presente - uma cumbuca rosa e branca, pintada por ela. No fundo os dizeres: “Vovó Inês, te amo. Lê -2014”. Diante de carinho de neto, impossível evitar o core acelerado.
Lê quis ajudar-me com meus livrinhos, mais de duas centenas, para carimbar o registro dos direitos autorais, embalar em saquinho plástico e lacrar. A jeitosinha passou tardes inteiras nessa “brincadeira”. Se dependesse dela, não faria outra coisa. Não sairia nem para a festança de São João, vestida a caráter, em tons de branco e lilás. Por fim, disse que queria trabalhar com carimbos, pode? Mas também quer ser aeromoça, professora, comerciante etc.
Foi uma companheira e tanto que me veio da Bahia. Pôs-me roupa no varal, recolheu-a, ajeitou a cama e as coisas dela, como uma mocinha. No dia em que a levei a Viracopos, meu coração ficou apertadinho. Entregá-la nas mãos de estranhos, ainda que da companhia aérea, foi um sufoco. Mal me aguentava de pé, ao dar as costas para vir embora, pedindo ao bom Deus que a protegesse, até chegar às mãos dos pais.
E neste meado de julho, matei a saudade de Manu, moreninha brejeira. Embora os pais e ela ficassem numa pousada, tivemos chance de partilhar coisas simples e gostosas, como os animaizinhos na SES – coelhos, patos, gansos, passarinhos, galinhas e muito mais. Manu é boa ajudante na cozinha. Sua salada de frutas é perfeita, tudo cortado miudinho, uma delícia. Adora enfeitar pratos e ama agulha e linha, até me fez uma bonequinha de pano.
O que quero mais? Curtir muito meu vovozado, enquanto Deus permitir...
minesprado@gmail.com Rabiscos de Minês:minesprado.blogspot.com.br
Publicação no Edição Extra de 26/7/14
O que é ser útil
O que é ser útil
Tem rodado muito na internet um vídeo do padre Fábio de Mello, abordando a utilidade das pessoas... Há pouca novidade nas palavras do padre, mas sempre é “útil” rever certos aspectos desta vida, no caso, relações estabelecidas entre humanos, em função da serventia de cada um.
Como, sábado passado, escrevi gostosamente sobre meu vovozado, nada mais natural que eu o ligue à utilidade do idoso. Com que olhos essa questão é vista? Creio que depende muito do olhar - se de uma criança, um jovem ou um adulto.
Idosos, de modo geral, são pacientes, adoram contar histórias e ensinar brincadeiras às crianças, razão pela qual muitos acabam como babás dos netos, sendo “utilíssimos”. Mas, quando se negam a tal, são úteis para a família? Provavelmente, não. São estorvos e, talvez, desencaminhadores dos netos, já que avós têm um jeitinho especial de deixar neto fazer o que quer, e até são coniventes nas infrações dos pequenos.
Queria estar errada, mas parece rarear um idoso “inútil” que seja querido pelos seus. Não sei se a razão são as profundas mudanças no mundo: o perfil pai/provedor, mãe/dona-de-casa já era, as casas ficam vazias a maior parte do tempo, pois cada um vai para um lado, o dia passa com raros encontros da família. Então, o idoso vai ficar com quem? Fazendo o quê? Vira pacote pronto para passar às mãos alheias, sejam de profissionais, sejam de amadores.
Mas deixemos a questão idoso/família de lado e vejamos o relacionamento idoso/amigos. Se o idoso é ativo, bem de vida, mesmo que ranzinza, terá um exército de amigos da mesma faixa etária, pois é quase uma utilidade pública: para os amigos e também para o governo, porque não pesa no sistema previdenciário. Ele se cuida, faz musculação, come do bom e do melhor, dirige, compra/vende, viaja, é livre pra fazer o que lhe der na veneta, até para meter a mão no bolso. E a bengala? Ora, em velho rico, a bengala é charme.
Se o idoso, ainda que ativo, for um pé rapado, a realidade é outra. É provável que fique enfurnado num cantinho, falando com as paredes. Dificilmente receberá visitas. Sua utilidade só não será zero, se for ótimo em trabalho voluntário ou em jogos de tabuleiro e carteado. Então, seu mundo se ampliará nas instituições de comadres/compadres ou pracinhas, pois bom parceiro é sempre útil.
Será que o idoso faz amizade com jovens? Por ele, sim, mas quais jovens querem saber de papo de velho? Poucos valorizam a experiência dos anos. De modo geral, para a moçada, velho é sinônimo de chatice e reumatismo.
Retomando o vídeo do padre Fabio de Mello, é melhor esquecer a nossa utilidade ou inutilidade e viver a doce vida. Se puder ser ao lado da família, mesmo que nos pinte assim ou assado, melhor. E, claro, ao lado dos amigos do peito ou nem tanto. Porque, se formos esmiuçar se prestamos ou não para alguma coisa, se somos úteis pelo nosso bolso ou pelo nosso coração, esqueceremos o azeite da máquina que já começa a emperrar. Deus nos livre!
minesprado@gmail.com
“Rabiscos de Minês”:minesprado.blogspot.com.br
Agosto/14
publicação no Edição extra de 2/8/14
sábado, 5 de julho de 2014
IGREJA EM TRÂNSITO
Igreja em trânsito
Domingo, dia de são Pedro, a Folha publicou editorial – Igreja em trânsito - sobre as mudanças que a igreja católica pretende realizar, após pesquisa junto às dioceses, em que religiosos e católicos praticantes opinarão sobre temas polêmicos; ex.: o filho adotivo de casal homossexual faz jus ao sacramento do batismo, através do qual se torna filho amado de Deus?
Tive pai “congregado mariano” e mãe “filha de Maria”, seguidores fiéis do catolicismo. Por isso, em termos de controle da natalidade, aplicavam a “tabelinha” , ou seja, faziam amor de acordo com o ciclo menstrual, a fim de não povoarem o mundo aleatoriamente. Como nem sempre a prevenção dava certo, mamãe teve sete gravidezes, cinco das quais vingaram.
A prole de três homens e duas mulheres estava de bom tamanho. Impossível aumentá-la. Então, já que a tabelinha era falha, optaram por outros meios anticonceptivos, direito deles, mas contra as diretrizes de Roma. Resultado: por questão de coerência, afastaram-se da comunhão, pois viviam em pecado permanente, sob o prisma religioso... Um absurdo!
Jamais engoli a ideia de que um casal amoroso, dedicado totalmente à família, fosse pecador por uma questão de foro intimo, como bem expressa o editorial da Folha de 29/6/14.
Meus pais tiveram uma vida bastante sacrificada, proporcionando aos cinco filhos tudo de essencial para o bom desenvolvimento do individuo. Nossa mesa era farta, nossa saúde, zelada, nosso estudo (a maior parte em escola pública) foi de boa qualidade. Todo mundo foi batizado, fez catecismo e crisma,como manda o figurino católico.
Mamãe e papai, mesmo tendo família numerosa, eram solidários e caridosos não apenas com vizinhos, amigos e estranhos, mas com a parentada toda. Então, como aceitar que se “punissem” por evitarem mais filhos? Lembrando o sermão do padre, neste dia de são Pedro: como aceitar que vivessem num martírio branco*? Não aceitava e não aceito até hoje.
Após a chegada de Francisco, o papa das mudanças, vejo que estou certa, ao viver, prioritariamente, segundo minha consciência. É o que meus pais deveriam ter feito. Mas não. Dois seres absolutamente cristãos optaram pelo caminho espinhoso: a renúncia ao sacramento da comunhão, não somente enquanto mamãe era fértil, mas pelo resto da vida, já que julgavam atitude hipócrita o retorno à eucaristia.
Comemoro, mesmo, a vinda de Francisco e sua visão objetiva do sofrimento imposto àquelas ovelhas desgarradas por falta de opção. Nos últimos anos, vimos avanços discretos para aliviar católicos de certos absurdos, um deles a condenação ao limbo (ausência da Luz Divina), por falta de batismo.
Que culpa tem um recém-nascido de morrer sem ter sido batizado? Nenhuma. Estranho que tal aberração contra um ser indefeso, tida como “questão teológica” no documento que a eliminou em 2007, sob o papado de Bento XVI, tenha sobrevivido por tantos séculos.
É um alivio a constatação de que, finalmente, o catolicismo tem olhar compassivo para divorciados, homossexuais e seus filhos adotivos, controle da natalidade, prevenção da AIDS e outros impasses vivenciados por aqueles que, compulsoriamente, têm atravessado a vida como ovelhas desgarradas.
Que a Igreja de Pedro, “porteiro do reino dos céus”, remodelada sob a égide do promissor Francisco, seja sinônimo de conforto e apoio, agasalhando e norteando, amorosamente, todo cristão que a ela recorrer, em quaisquer circunstâncias.
*Martírio branco: sofrimento interior, por amor a Deus.
Julho/14
minesprado@gmail.com
“Rabiscos de Minês”: minesprado.blogspot.com.br
Assinar:
Postagens (Atom)