quarta-feira, 10 de junho de 2015

Conselho de macaca-velha

Bateram na minha bunda – a moça grosseira reclama para o jovem policial. O brasileiro se expressa ambiguamente a toda hora, ou seja, a ofendida pode estar falando da traseira do veiculo dela ou do próprio bumbum, concorda, leitor? Nós, conterrâneos, entendemos tudo direitinho, lemos nas entrelinhas. Mas os que vêm de fora? Será que compreendem esse linguajar? A questão é preocupante, pois um mal-entendido pode gerar muita confusão. Querem ver? Anos atrás eu estava num shopping enorme, em Virgínia, junto a Washington – Distrito de Columbia, capital dos Estados Unidos. Sou avessa a shoppings, porém precisava fazer hora, até que meu filho saísse do trabalho e fosse me buscar. Passei um tempão andando pra lá e pra cá, entrei em lojas, vi vitrines, indaguei, treinei meu inglês enferrujado. Tudo enferruja, se não é usado... Para não sair de mãos vazias, comprei umas echarpes pras amigas e uma pra mim, de lãzinha, made in Italy. Fosse agora, seria “made in China”. Impressionante o que os EU importam; difícil adquirir algo feito lá, sobretudo roupas. Dá raiva, pois os produtos americanos costumam ser bons. Como cheguei ao shopping (Tysons, se não me engano) pela manhã, na hora do almoço, estava com fome. Americano não almoça. É um snack, lanche rápido, na base do sanduiche ou chips e olhe lá!. Não sou muito de lanche, então decidi conferir a pizza americana. Entrei num lugar apinhado, pedi um suco de laranja (orange juice) e um pedaço de pizza. Este estava horroroso, massa grossa, nada a ver com a que servem aqui – a do “Bedrock”,por exemplo, finíssima, servida na pedra, divina! Enquanto engolia a pasta medonha, empurrando-a com o suco, observava ao redor – mania de cronista- , o pessoal atropelando a vida, falando e mastigando ao mesmo tempo, tudo numa correria muito louca. Provavelmente, gente no intervalo do trabalho. Para gringo, “Time is money.” , ou seja, “tempo é dinheiro”. Com a pizza atravessada na garganta, dei mais umas voltas, de olho no relógio. Meu filho me pegaria lá pelas 7 da noite, na Califórnia Pizzaria, localizada junto à entrada do shopping. Para quem tem receio de se perder, ali é ponto de referência ideal, mesmo porque, enquanto espera, a gente pode sentar a uma mesinha externa, ler um bom livro, escrever, ver o mundo girar. Lá pelas tantas, eu estava no terceiro andar. Então, com preguiça de olhar no mapa de localização que existe por todo lado, resolvi perguntar a um funcionário de loja (clerk) como eu fazia para chegar à California Pizzaria. A resposta não poderia ser mais absurda: _ You must go to the airport to fly to California… (Você precisa ir ao aeroporto, para voar para a Califórnia.) Contive o riso, expliquei-lhe que queria saber de uma pizzeria no térreo. De certo, quando o abordei, ele só captara a palavra “Califórnia”, acabou entendendo, explicou-me onde pegar o elevador, e ok. Lá me fui, rindo da big confusão e louca para compartilhá-la com meu filho que chegou logo mais, encontrando-me sentadinha na “Califórnia”, rabiscando as experiências do dia no Tysons. Veja, caro leitor, a comunicação ambígua, porque admite dupla interpretação, pode criar muita encrenca! Assim, todo cuidado é pouco, ao se expressar no dia a dia. E conselho de macaca velha: se estiver fora do Brasil, cuidado redobrado na sua fala. Minesprado Publicação no EXTRANEWS - 9/6/2015

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Duros na Queda

Duros na queda Estive “dengosa” e juro: foi como se todas as doenças do mundo me atacassem com unhas e dentes, sem piedade. A cada um, dois dias, sintomas diferentes: enjoo, intestino atrapalhado, dor nas pernas, na coluna e cabeça, nos ouvidos, cansaço extremo. Minhas costas reclamavam, como se eu tivesse lavado mil “trens”. E mais febrão (este só por uma semana). Em resumo, a coisa é complicada, a gente sofre um bombardeio. Li que a vacina da dengue estará no mercado em 2016. Tomara, pois é moléstia que nos põe sob sérios riscos e pode se repetir; ninguém fica imune, após a primeira dengue. Por ora, o tratamento se resume a hidratação e repouso. Ah, a alteração do paladar é medonha: a boca fica pegajosa, água, arroz, feijão, tudo tem o mesmo sabor, sendo que, para mim, café e verdura ficaram intoleráveis. Quem me conhece sabe que amo o “ouro verde”, o cheirinho dele é um imã, sinto-o longe. E sabe, também, que não passo sem meus “matinhos” – alface, rúcula, agrião, almeirão. Pra completar, o mais preocupante: a dengue mexe até com os miolos, pois a cabeça fica cansada, as ideias fogem, um inferno para o escriba. Passei apertada. Não sei se o leitor percebeu isso nos meus últimos rabiscos para o Extranews. É bom saber que a recuperação é lenta, não se fica ok. de uma hora pra outra. Os gambitos vão se firmando lerdamente, o sabor volta a passo de tartaruga, o cansaço dá trégua, mas, vez ou outra, diz “presente”. Só que cada um reage a esses desafios de um jeito. Passei quinze dias meio de molho, mas não deixei meus afazeres de lado, ao contrário, fiz suco de inhame, sopa (coisa que desce fácil), lavei roupas, fui a laboratórios e consultas já agendadas há séculos. Enfim, sou dura na queda e decidi que não iria tombar à custa de um mosquitinho arteiro. Costumo tomar a vacina da gripe todo ano, na CAASP. Aí fiquei na dúvida – tomo não tomo. Indaguei daqui e de lá, e dei meu braço para picar, estendida numa cadeira de dentista! Só quando senti a picada me dei conta do mico. Eu entrara no local da vacinação – um consultório odontológico – e, simplesmente, achei que ia tratar dos dentes. Maluquice! Sem graça, me desculpei com a enfermeira, expliquei que estava distraída por culpa da dengue. Muito gentil, ela indagou se eu havia tomado soro etc. e tal. Eu, hein?? Me tratei na minha casa. Enfiar-me em ambulatórios de emergência não é comigo. Só de pensar naquela sala cheia, todo mundo doente e, pior, falando de doença, aí morro antes da hora. Bem, achei que o mosquito sem-vergonha e que faz tantos estragos merecia umas linhas. Onde e “onde” ele me picou nunca saberei. Uma mulher, encafifada com uns sintomas do marido, fez-me a pergunta: “Onde a senhora pegou dengue?” “Minha filha, ninguém pode lhe dar essa reposta, só o mosquito.” – retruquei, rindo. Semana passada decidi mandar pra longe a tal da dengue. Fui dançar. No começo, as pernas estavam lerdas, mas, após um aquecimento, mandei ver, como se diz por aí. Dancei a noite toda e amanheci ótima, pronta pra dengos de verdade, nada mais. Não pretendo ensinar ao leitor dengoso o tratamento que funcionou pra mim. Mas uma coisa é certa: só fazem conosco o que permitimos que façam. O mosquito de nome pomposo – aedes aegypti - quer, sim, nos derrotar, mas temos que ser “duros na queda” e, sobretudo (isso é sério!), cuidar muito bem da saúde, da alimentação, das doenças pré-existentes e, claro, da própria casa. Como o leitor deve saber, a pessoa que já está carunchada com outros males, como diabetes, hipertensão etc., corre mais risco de morte do que aquela que se mantém saudável, no cotidiano. Por isso, fique alerta! “Rabiscos de Minês”: minesprado.blogspot.com.br minesprado@gmail.com Publicação no EXTRANEWS - 3/6/15

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Maioridade Penal

Maioridade Penal Há anos se arrasta projeto de lei, para redução da maioridade penal de 18 anos para 16 anos. Várias questões se impõem, diante dessa pretensão. A primeira delas é imaginar um ser ainda em formação (há quem passe a vida sem se formar...) trancafiado numa cela, em meio a barbados de toda idade, já que nosso sistema prisional, desestruturado para amparar jovens criminosos, está falido, sob todos os aspectos. Em suma, aquele que, aos 16 anos, for para a cadeia, estará indo para mais uma escola do crime. Outra questão é que o Brasil tem a péssima política de combater efeitos e não causas. Pouco tem sido providenciado, a fim de que menores não resvalem para o mundo cão. Ao contrário. Projetos, como em relação ao crack, em São Paulo, são apenas medidas eleitoreiras, nada mais. Tanto que os jornais noticiam a recaída de boa porcentagem dos viciados. Projetos vêm e vão, como desfiles do momento, sem plateia firme a acompanhar os “modelos”. Um viciado que, num dia, conhece o estrelato, noutro dia, cai no esquecimento e volta para a realidade nua e crua. Àqueles que trazem para essa polêmica o argumento do voto aos 16 anos, digo-lhes que falam besteira, respeitada a liberdade de expressão, claro! Votar aos 16 anos é opcional e pode ser considerado um ensaio de cidadania. O jovem aprende como escolher o candidato, adquire responsabilidade e senso de respeito à opinião alheia, além de outros benefícios. Nada a ver com impor maioridade penal nessa idade em que pouquíssimos jovens têm seus caminhos delineados. Note-se que, nos dias atuais, os jovens estão permanecendo na casa paterna até mais tarde. Muitos, terminado o ensino médio, nem sequer sabem o que querem da vida, vivem à deriva, sujeitos à manipulação dos mais “experientes”. A propósito de combater causas e não consequências, leio na Folha de 17/5/2015, entrevista com o antropólogo Matthew Gutmann, em que, mais uma vez, são criticados os vagões femininos, isto é, neles só viajam mulheres, a fim de evitar o mau comportamento dos marmanjos. É mais um exemplo de medida ineficaz, pois despreza a educação e reforça a “incapacidade” do homem de se conter diante do sexo oposto. Separar homens e mulheres, nos veículos públicos é inconcebível, uma vergonha em pleno século 21. Ressalvo que o transporte privativo para mulheres nas metrópoles já virou o século e nada resolveu. Todo dia, mulheres são ultrajadas, violentadas, ofendidas física e moralmente, sem que as autoridades tomem conhecimento, pois a maioria delas teme as consequências da denúncia. É salve-se quem puder. Em suma, a maioridade penal, em certos países, como nos Estados Unidos, tende a ser aumentada de 16 para 18 anos, pois a experiência demonstrou resultados desanimadores em relação à criminalidade juvenil. O Brasil não deve ir na contramão, jogando meninos à toca do leão, o sistema penitenciário falido e desumano. Endurecimento das medidas socioeducativas, reformulando-se o ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente -, programas de reabilitação e conscientização, a partir do núcleo familiar, e outros mecanismos precisam ser levados a bom termo e terem solução de continuidade, para pintarmos um retrato mais otimista da juventude brasileira. Combater causas dá trabalho, exige estudo, planejamento, investimento (sem corrupção), persistência sistemática e em longo prazo. Arrisco-me a dizer: prazo de uma geração. A juventude carece de referencial, desde a família à política. Um homenzarrão, integrante de Força Sindical, com calça arriada em plena Câmara dos Deputados é exemplo de quê? 20/5/15

quarta-feira, 13 de maio de 2015

A visita de Obama e a lição de Morgan

A visita de Obama e a lição de Morgan Nesta madrugada recebi visita inesperada- Mr. Barack Obama, em pessoa. Chegou, meio apressado, com alguns livros a tiracolo. E desandou a falar da Casa Branca, de modo impessoal e descompromissado. Sentado à cabeceira de uma mesa comprida, própria para reuniões, virava as páginas com certa ansiedade, como quem quer cumprir um protocolo e se mandar. Sentei-me na outra ponta da mesa. Éramos dois numa reunião que só poderia ser onírica. Indaguei-o sobre a questão racial, desencadeadora de sérios conflitos no território americano, sobretudo em Baltimore, MD, expandindo-se rapidamente para outros estados. Situação preocupante essa. Ele se recusou a falar desse impasse. Nisso, saído sei lá de onde, aterrissa na sala meu marido. Amante dos livros, a atitude foi de moleque que não quer ficar fora de cena. Empunhando vários exemplares, elevou um deles acima da cabeça de Obama, para que eu apreciasse gravuras, com toda a extensão da mesa a me separar delas. Mal distingui as figuras. Coisa doida! Por motivo qualquer, talvez para servir água ou coisa assim, ausentei-me da sala. Antes que lá voltasse, ouvi passadas firmes, seguidas de um bater de porta. Obama se fora. Acordei meio zonza, sem nada entender. De onde a gente tira sonhos assim tão singulares? O dia já raiava. Fui tomar meu café, um modo de espantar coisas sem pé nem cabeça e refletir também. Quando Mr. Obama foi eleito para a presidência dos Estados Unidos da América, eu estava no Tio Sam. Confesso que torci para ele e fiquei exultante com a vitória. Um negro na Casa Branca deveria mudar o rumo da história americana, e muito. Mas forças ocultas, como oposição e outras circunstâncias, costumam dobrar o idealismo. Digamos que o vencem pelo cansaço. Passo a passo, viu-se um Obama que não conseguia cumprir, na integra, suas promessas. Democrata que é, tinha e tem a parede poderosa dos republicanos a impedir suas concretizações. Quase todas as propostas do presidente trombam com a oposição, sendo a questão da saúde a primeira de muitas lutas a ser enfrentada e vencida sob protestos. Barack Obama conseguiu a reeleição, mas sua atuação política está insignificante. Já não é visto como promotor da paz, “salvador do mundo” e muito menos dos negros, eternas vitimas de discriminação nos Estados Unidos, e não só. Dia destes ganhei um novo amigo, o “Morgan”, apelido que lhe cai muito bem, pois tem o tipo e o carisma do ator Morgan Freeman, que se destacou em Conduzindo Miss Daisy (1989), Um Sonho de Liberdade (1994), Antes de Partir (2007), Invasão à Casa Branca (2013) e outros. Indago-me se, por trás desses “homens livres”, existe trajetória que inclua preconceito e luta por um lugar ao sol. Certamente que sim. No Facebook leio: “O leite é branco, o sangue é vermelho, a alma...” A cor dela fica na conclusão de cada um – colorida ou desbotada, depende. A encrenca está na película que envolve nosso corpo, mero acidente, mas importante em qualquer questão racial classificatória. Ridículo que, em razão da pele, deixemos de nos ver como irmãos. Qualquer preconceito é, sem dúvida, questão de alma. Só com muito esforço e reflexão, aliados a uma boa dose de razão, pode-se extirpá-lo dos corações, em qualquer lugar deste mundo controverso, porém belo, na essência. Obama visitou-me em plena madrugada e se mandou sem dizer adeus. Nem tive tempo de lhe recomendar: “Não desista dos seus sonhos!” Mas posso dizê-lo ao meu amigo de carne e osso, “Morgan”, que me ensina: “Casa de pobre é igual igreja, não termina nunca.” “Rabiscos de Minês”: minesprado.blogspot.com.br minesprado@gmail.com

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Dia das Mães e as Negras Abnegadas

Dia das Mães e as negras abnegadas Parece-me que, no Dia das Mães, as mães brancas são mais paparicadas, não sei por quê. Nas lojas, maridos e filhos ansiosos escolhem presentes para a “rainha do lar”; nas escolas, preparativos para homenageá-las, crianças trabalhando na “surpresa” elaborada com a ajuda das “tias”. Enfim, clima de festa “branca”, sobretudo no comércio. Mas, há que se lembrar, e como!, da mãe negra, da mãe de leite, da babá. Das Esmeraldas e Sebastianas que passam despercebidas nessa data estabelecida tanto tempo depois delas. Quantas gerações as compartilharam e por elas foram acalentadas, educadas, protegidas, alimentadas! Elas e seus vestidos compridos xadrezinhos, seus turbantes e aventais. Elas e seu canto de embalo inconfundível. Por dentro, carregavam os resquícios da escravidão; por fora, eram símbolos de paz, vivacidade, fidelidade, submissão, doação irrestrita. Se preciso fosse, dormiam de pé, para velar um pequenino ardendo em febre, e até arriscavam a pele, para satisfazer os brancos. “Trabalha, trabalha, nego!” Reconhecimento? Poucas o tiveram. Mesmo porque alimentavam esperanças modestas e mal sabiam de seus merecimentos. Viver sob um teto era o paraíso para elas, braço direito dos patrões, os inconscientes da valia dessas heroínas anônimas. Quantas histórias as mulheres negras ajudaram a escrever, quantos amores protegeram, quantas dores amainaram, quantas confidências levaram para o Além. Fui sortuda: Esmeralda e Bastiana marcaram docemente minha infância. Esmeralda, negra alta, forte, madrugava em casa, em São Paulo, ajudava em tudo e, às vezes, ficava conosco, para meus pais irem ao cinema, única diversão deles. Era boa contadora de causos. Sentávamos os três no colo dela, horas a fio. Numa ocasião, fomos todos parar no chão – a cadeira não resistiu ao peso da Esmeralda... Pra explicar a cadeira quebrada foi uma tensão danada. Havia muito respeito pelos pais. Qualquer incidente causava apreensão. O que nos esperava? Um olhar sério pros cabisbaixos e pra cadeira: ‘Qual foi a arte?’ Uma desculpa da boa negra quebrava o silêncio. Já Bastiana era pau pra toda obra, na família grande. Ora acudia uns, ora outros. Se um nenê ia nascer, Bastiana chegava antes, de trem, vinda de Santos para Ribeirão Pires ou para São Paulo, dependia da necessidade. Negra de carapinha curtíssima, olhar penetrante, trabalhadeira e amiga. Vejo-a no fogão à lenha, a mexer a sopa de feijão, ou a limpar o porco que, na véspera, grunhia no chiqueiro da Chácara Paraíso, palco de lindas roseiras onde fazíamos nossas “artes”. Poderia pintar a Bastiana sentada num canto da copa, pensativa, enquanto, em surdina, uma tia sapeca amarrava a coitada à cadeira, com as tiras do avental. Na hora em que a Bastiana se levantava, era gargalhada geral, inclusive dela. Em São Paulo, no pós 2ª guerra, ela nos socorreu por mais de mês; parece-me ouvi-la, aos berros, de madrugada, a expulsar um ladrão que forçava a porta de casa. Eta negra corajosa! Na minha fase adulta, houve uma Áurea singular: cafuza, baixa, gordinha, carrancuda, mas bondosa, trabalhou conosco nos anos sessenta. Se o nome era devido à Lei Áurea (13 de maio de 1888), não sei. Com ela, uma analfabeta, aprendi estranha lição: a gente poderia engravidar, ter filhos e continuar virgem. Seus gêmeos viviam no Asilo Anália Franco, em Santos. A mãe-virgem morava no emprego e só via os filhos aos domingos. Áurea, infeliz, sofrida, chegou e partiu, sem mais nem menos. Sumiu no mundo, deixando seu suor no nosso dia a dia corrido. Que você, leitor, também tenha tido o privilégio de conviver com negras maternais, abnegadas, personagens de histórias deliciosas. Saudade delas! minesprado@gmail.com “Rabiscos de Minês”:minesprado.blogspot.com.br

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Criançada de Ontem e de Hoje

A criançada de ontem e de hoje Comparo a infância de meus meninos com a da criançada de agora e fico pasma, penalizada. A infância hoje é massacrada, assassina-se um tempo que não volta mais. Revejo meus filhos brincando de Forte Apache... Espalhavam índios, cavalos, tendas pelo chão da sala, ajeitavam-se junto às miniaturas e, horas a fio, conversavam, comandavam, relinchavam gostosamente. Era um combate sadio, um descarregar de energia e criatividade. Vivenciavam uma luta inocente, divertida, mas sem alienação nem transferência de energia negativa para a vida real. Revejo-os, junto comigo na praia, pulando amarelinha, caracol, jogando bola, empinando pipa. Ah, como era bom! E também junto ao pai, na pescaria, quando fazíamos piquenique lá no Alto da Serra, com direito à mesinha e tudo. Ouço um deles, no nosso quintal, com pose de Ronnie Von, fazendo a pá de lixo de microfone, cantando para os vizinhos de casa. Ouço ainda as palmas dos amiguinhos... Até nas brincadeiras de rua tudo era mais saudável, embora sempre haja algumas recordações negativas, inevitáveis em toda infância. Hoje, como a meninada passa seus dias? Na companhia de brinquedos sofisticados e telinhas. Ali, não conversam nem criam. Tudo já vem pronto. O comando nas mãos inocentes faz de cada pimpolho o todo-poderoso, sensação que se transfere, com frequência assustadora, para a vida real. “Se eu domino o jogo, domino o mundo” – parece ser o pensamento da miudagem (gosto do termo português). A meninada come e dorme com as telinhas a tiracolo. Se antes a TV era a vilã que bagunçava o convívio familiar, sobretudo as refeições, agora são as maquininhas de aparência inocente, porém com força de muralhas entre pais e filhos, para não dizer, entre todos os membros da família, já que, não raro, todos estão presentes apenas de corpo. As mentes vivem imantadas pelos jogos e redes virtuais. Vez ou outra, a comunicação entre eles se faz via internet, mesmo que estejam ombro a ombro, à mesa de um restaurante, por exemplo. A foto com o nome sofisticado de selfie ganha espaço, agora acompanhada do tal pau de selfie, mais um apetrecho para encher a bolsa da mulherada e o bolso do comerciante esperto, sempre de olho no produto que “é da ora”. Não é à toa que a miudagem fica abobada, ao dar de frente, ao vivo e em cores, com coelhos, galináceos e outros bichinhos “normais” na infância de meus meninos. Fico extremamente feliz, quando observo uma cena em que pais e filhos aparecem assim, juntos, em brincadeiras, ou interagindo com a natureza – fauna e flora - , muitas vezes até alimentando animaizinhos, pescando, andando de charrete ou a cavalo. Por experiência própria, tenho certeza de que a criançada que vivencia a infância com os familiares guardará, para sempre, cenas preciosas, ao passo que a pimpolhada das “telinhas” amargará, no futuro, um telão em branco, a título da infância mal vivida. PS.: Por questão de justiça, devo penitenciar-me das críticas acima: graças às telinhas, “falo” mais com meus netos, tesouros da vida de qualquer avó. minesprado@gmail.com.br “Rabiscos de Minês”: minesprado.blogspot.com.br Extranews – 15/4/15

Nascimento e Morte

_ Mas você veio sozinha? – é o que ouço, constantemente, nas últimas décadas.

_ Vim sim. Afinal, nascemos e morremos sozinhos, não è? – retruco, nem sempre com toda a boa vontade do mundo.

Essa indagação me irrita, até parece que estou ali, cometendo um pecado mortal. Quando digo “ali”, pode ser qualquer lugar: teatro, cinema, velório, baile, almoço, jantar, aniversário, consultório médico, hospital, praça e Banda Dona Gabriela, desfile, excursão, hotel, boteco, avião, viação interestadual, rodovias, ônibus londrino, museu americano, Câmara Municipal etc., tanto faz. Com tal explanação pode ser que eu seja julgada antissocial, neurótica ou sei lá. Nada a ver e, deixo claro: isso não me preocupa nem um tico. Adoro estar entre amigos, amo conhecer pessoas de qualquer nível socioeconômico, sobretudo de outras culturas, seja no Brasil, seja no exterior. Na Folha de S. Paulo há uma enquete semanal: “Fui e voltaria” ou “Fui e não voltaria”. Alguns leitores devem conhecer essa matéria. Muitas vezes, a resposta é positiva, pois a pessoa foi a algum lugar e afirma, com todo o entusiasmo, que lá voltaria; outras, a resposta é categórica - foi e não voltaria. Claro que sempre há justificativas para as respostas, mas quem sabe o motivo seja a companhia errada. Não sei se o leitor concorda comigo: em certas situações, se estamos desacompanhados, principalmente em viagens, há a chance de curtir muito mais o momento, o local, explorar a situação à vontade, inclusive fazer amigos inusitados e até para o resto da vida. Esse encontro pode acontecer tanto no supermercado, no hospital, na loja, no meio do mato ou num táxi londrino, certo? Assim, vejo a reação de certas gentes como sintoma de insegurança e/ou preconceito. Para elas, é quase um sacrilégio uma mulher solita, onde quer que seja. Interessante que, raramente, alguém questiona um homem por estar sozinho. Ao contrário, é “normal”. Pode até ser que, em relação ao sexo oposto, o cidadão seja alvo de estranhamento. “De certo não gosta de mulher, é gay!” e outras ignorâncias. Mas seu aparente isolamento não atrai tanta curiosidade como o da mulher. Em certas ocasiões, mulher desacompanhada é ímã para todo tipo de observação, para não dizer reprovação. Ridículo isso, em pleno século 21, em que o elemento feminino ocupa cargos antes só atribuídos ao sexo “forte”. Recentemente, li: “Ministra Maria Elizabeth Rocha, primeira mulher a ocupar o cargo de presidente do Superior Tribunal Militar.” Resumindo: se, no nascimento e na “última grande lição” - a morte -, momentos únicos e indelegáveis, somos alunos solitários, parece lógico e natural que uma mulher esteja, bela e formosa, sozinha, onde quer que seja, sem ninguém se achar no direito de ali meter a colher... minesprado@gmail.com “Rabiscos de Minês”: minesprado.blogspot.com.br Publicação Extranews - 22/4/15